Captulo 1
Influncias pr-natais no desenvolvimento
1.1 Influncias pr e perinatais no desenvolvimento
Clara Regina Rappaport 
 de fundamental importncia para o psiclogo ter noes de como ocorre o processo de fecundao e 
crescimento da criana no tero materno porque muitos problemas de comportamento, deformidades fsicas e 
distrbios de personalidade tm origem nesta fase. No faremos uma reviso completa destes aspectos, pois 
inmeros autores j a fizeram, quer de forma breve, quer de forma exaustiva. Citaremos alguns deles apenas a 
ttulo introdutrio, pois a prpria crendice popular tem mostrado ao longo da histria que os mistrios da vida 
intra-uterina e as formas pelas quais o ambiente pode influenciar esses processos despertam o interesse de 
tdos. 
Antes do advento da embriologia, acreditava-se que qualquer evento influenciando a me durante a gravidez 
afetaria o feto, como, por exemplo, se uma futura me fosse assustada por um co, a criana poderia 
desenvolver fobia por este animal; se desejasse algum tipo de alimento e no o obtivesse, a criana poderia ter 
aspecto deste alimento; que no se pode recusar qualquer tipo de alimento oferecido por uma gestante, etc. 
Estas crenas derivavam de uma suposta conexo neural entre o sistema nervoso da me e o do filho e da 
transmisso direta de emoes, desejos, angstias, etc., o que obviamente no tem sentido devido s grandes 
diferenas de maturidade do sistema nervoso central de um adulto (me) e daquele que ainda est se formando 
no feto. 
Atualmente, sabe-se que grande nmero de substancias passam atravs da placenta da me para o feto. 
Alteraes na fisiologia da me produzem mudanas no feto, embora isto ocorra por um mecanismo muito mais 
complexo do que fazem supor as crendices 
populares. Estudos neste sentido comearam com a constatao de que deformidades nas crianas deviam-se a vrus (como 
o da rubola ou da sfilis); venenos, radiaes, substncias qumicas (como drogas ou antibiticos) e ausncia ou excesso de 
vitaminas levavam  cegueira, m-formao craniana, ausncia de membros, debilidade mental, desordens do sistema 
nervoso central e outras deformidades grosseiras. 
Do ponto de vista emocional, Sontag (1941) sugeriu que substncias qumicas que aparecem no sangue materno durante o 
stress emocional se transmitem ao feto, gerando neste efeitos adversos. Por exemplo, constatou que os movimentos fetais 
aumentam por vrias horas e assim crianas nascidas de mes com stress emocional prolongado poderiam apresentar alto 
nvel de atividade aps o nascimento. 
Em outro captulo ter-se- uma viso mais atualizada e mais complexa das influncias dos estados emocionais da me 
durante a gestao. 
Lembraremos no momento outros tipos de fator: 
1) Idade da me. Algumas deformidades ocorrem com mais freqncia em mes muito jovens (menos de 20 anos  
aparelho reprodutor ainda em formao) ou mais idosas (mais de 35 anos). Ex.: mongolismo. 
2) Drogas. Quando ingeridas no estgio de formao podem provocar deformaes fsicas e mentais diferentes, conforme a 
quantidade ingerida e a etapa da gravidez. Como exemplo podemos citar as anfetaminas, os sedativos, cocana, etc. Na 
dcada de 60 muitas gestantes, em vrios pases do mundo, ingeriram uma droga  Talidomida (sedativo)  no incio da 
gestao e seus bebs nasceram com vrios tipos de deformao. 
Atualmente, existem estudos mostrando que o prprio cigarro e as bebidas alcolicas no devem ser utilizados em excesso 
durante a gestao sob risco de provocarem anormalidades, embora menores. As prprias drogas anestsicas utilizadas 
durante o processo de parto esto sendo questionadas no sentido de provocarem uma certa letargia, uma menor capacidade 
de resposta aos estmulos. 
3) Radiaes. Raio X em excesso podem provocar deformaes no crebro. Quanto s radiaes atmicas,  bastante 
conhecido o fato de que, alm da destruio causada pelas bombas atmicas em Hiroshima durante a 2. Guerra Mundial, as 
crianas nascidas de mulheres que se encontravam gestantes naquela ocasio apresentaram vrios tipos de anomalia. 
4) Doenas infecciosas. Sfilis, rubola e caxumba podem produzir abortos (fetos de m-formao, eliminados 
espontaneamente 
pelo organismo) ou anormalidades fsicas (cegueira, surdez, deformidades nos membros) ou mentais. 
5) Fator Rh. Quando houver incompatibilidade entre os tipos sangUneos da me e do feto, podem ocorrer 
abortos, natimortos, morte logo aps o nascimento, ou mesmo paralisias parciais ou deficincias mentais. 
Felizmente estes problemas j so bastante conhecidos na clnica mdica, facilitando medidas profilticas. 
Existem, entretanto, outras incompatibilidades sangneas (como o caso: 
me O, feto B) que podem produzir substncias txicas no organismo (no caso, altas taxas de bilirrubina) e que 
esto ainda em fase inicial de estudos. 
6) Dieta. Est atualmente comprovado que uma dieta pobre predispe a maiores complicaes durante a 
gestao e o parto, prematuridades, maior vulnerabilidade do beb a certas doenas e mesmo atraso no 
desenvolvimento fsico e mental. Da a prioridade que o governo brasileiro vem dando ao atendimento 
materno, infantil. Embora ainda precrio, esse atendimento ou est desaconselhando as chamadas gestaes 
de alto risco, ou, quando ocorrem, procurando oferecer atendimento mdico e complementao alimentar. 
To grave  este problema na nossa populao carente que o prprio jornal O Estado de S. Paulo, numa srie 
de reportagens publicadas no final do ano de 1980, mostra que uma alta porcentagem das crianas de 
determinadas regies da Grande So Paulo apresenta dficit tanto no crescimento fsico quanto no intelectual, 
havendo uma mdia de 2 anos de retardamento no seu desenvolvimento. Esta defasagem  atribuda  m 
qualidade de vida e principalmente  alimentao inadequada e insuficiente da gestante, do beb e da criana 
pr-escolar. Como soluo para minorar ou pelo menos impedir que esta situao se agrave, sugere-se a 
orientao para um planejamento familiar mais adequado, bem como uma melhoria nas condies de 
alimentao e sade no incio da vida. Diga-se de passagem que, alm das deficincias nutritivas, estas 
crianas vivem num ambiente sem estimulao adequada para o desenvolvimento intelectual. Pesquisas 
realizadas na Inglaterra mostraram que crianas, filhas de pais carentes e de 0.1. rebaixado, quando submetidas 
a estimulao adequada em instituies nas quais passavam parte do tempo, tiveram desenvolvimento 
superior quelas de um grupo controle sem manipulao. Alm do perodo que as crianas passavam na 
instituio, o programa previa atendimento e orientao s mes no sentido de autovalorizao, melhoria em 
suas condies de trabalho e de relacionamento com as crianas. Completando ainda a experincia, as moas 
adolescentes desta comunidade eram treinadas no cuidado com bebs e crianas pr-escolares no sentido 
profiltico, isto , para quando fossem mes. 
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Muitas instituies comunitrias e religiosas tm prestado algum tipo de assistncia a mes e famlias carentes 
em nosso meio, embora no contem, geralmente, com os mesmos recursos que tinham estes pesquisadores 
ingleses. 
Por esta breve exposio de alguns dos muitos fatores que podem predispor a diversos tipos de distrbio 
durante a gestao, conclui-se pela importncia da orientao mdica durante a gestao ou mesmo do 
aconselhamento gentico quando um dos membros do casal  portador de qualquer caracterstica que possa 
afetar negativamente o feto; ou ainda quando, embora pai e me sejam sadios, possa existir algum tipo de 
incompatibilidade capaz de prejudicar o feto. O conselheiro geneticista faz um estudo do casal e orienta no 
sentido da desejabilidade ou no da procriao. Embora recente, no Brasil este tipo de atividade existe nos 
grandes centros urbanos, ligado geralmente a escolas superiores de medicina e gentica. 
Alm dos fatores j enumerados que prejudicam o feto de forma grosseira, existem outros que, embora de 
maneira mais sutil, prejudicam o desenvolvimento e o bem-estar psicolgico (e social, em ltima anlise) tanto 
da me quanto do beb. Quero me referir ao processo de parto tal qual vem sendo comumente realizado em 
nossa sociedade. 
Vejamos como ocorre. Durante a gravidez a mulher, vida de atenes especiais que a ajudem a ajustar-se ao 
novo papel de me, recebe assistncia obsttrica de forma mecnica e impessoal.  recebida por um mdico 
atarefado que a examina e receita vitaminas ou outros medicamentos necessrios. Suas emoes, medos, 
ansiedades, alegrias e expectativas no so considerados. 
O parto  realizado num ambiente hospitalar que, se traz benefcios  sade pela sua assepsia, pode produzir 
efeitos emocionais danosos, os quais podemos denominar esterilizao emocional. Analisemos a situao 
pari passu. A mulher parturiente, sofrendo as dores das contraes e as angstias de um momento 
desconhecido e crucial,  recebida fria e rotineiramente por pessoas estranhas. conduzida de uma sala para 
outra, sem participar de qualquer deciso, tomada em nome de princpios obsttricos que no lhe so 
transmitidos. 
A induo do parto por drogas e o rompimento artificial das membranas feito por convenincia (para acelerar o 
processo) produzem aumento das contraes uterinas (e portanto das dores da me) e menor fluxo sangneo 
para o crebro do beb, o que pode causar anormalidades neurolgicas, cardacas, disfuno cerebral mnima, 
etc., alm da necessidade de se administrar analgsicos e sedativos para aliviar as dores maternas. Estas 
drogas concentram-se na circulao fetal e no sistema nervoso central, o que pode levar a comportamento 
menos responsivo aps o nascimento, menor suco, proble ma 
de respirao e disfuno cerebral mnima. Este estado da criana e a sonolncia da me aps o parto 
(decorrente das drogas) levam a alteraes nas respostas maternas e, dependendo do par me- criana do grau 
e da durao, podem levar a conseqncias mais duradouras e imprevisveis. 
A posio da mulher deitada e amarrada torna o parto menos confortvel, impede a me de participar no 
sentido de procurar a posio mais confortvel; interfere e inibe o comportamento materno natural, o que pode 
tambm influenciar no estabelecimento da interao com seu beb. 
O corte que se faz na mulher durante o parto causa desconforto durante a amamentao, afeta o 
relacionamento sexual (e portanto conjugal) aps o parto, dificultando ao casal a elaborao da nova situao 
familiar. 
Vejamos agora o que ocorre ao beb. Os cuidados ps-parto so executados de maneira mecnica, 
rapidamente, num ambiente tumultuado e de muita luz. As luzes fortes sobre os olhos do beb podem 
prejudicar o comportamento de olhar mtuo que ocorre entre a me e a criana durante a amamentao. 
O parto cesariano, realizado incontveis vezes sem indicao obsttrica, com anestesia geral, pode levar a 
sentimento de incerteza em relao ao beb (ser mesmo seu filho?), sentimento de falha como mulher, alm 
das dores e da separao subseqente. 
A etologia, a partir de estudos com animais e posteriormente da observao de bebs humanos, constatou que 
os primeiros dias e semanas aps o nascimento constituem um perodo fundamental para o estabelecimento de 
uma ligao afetiva sadia entre a me e o seu beb. As primeiras horas e dias se constituiriam no denc ninado 
perodo de reconhecimento, quando os dois membros da dftLde estariam explorando um ao outro, 
conhecendo-se. Da a importrcia fundamental de um parto num ambiente de maior afetividade e de um contato 
Contnuo com o beb nas primeiras horas. Caberia ao pessoal hospitalar um auxlio no sentido de ajudar a 
cuidar do beb, pois que, ainda dentro dos princpios etolgicos, qualquer me (humana ou animal) est apta a 
cuidar de seu filho desde que possa dar livre vazo s suas emoes.  como se as mulheres fossem 
programadas geneticamente para cuidar de seus filhos e estes nascessem com aspecto e comportamentos 
capazes de eliciar nelas o chamado comportamento materno. Assim, numa posio naturalista, basta que me e 
filho sejam deixados juntos, num ambiente adequado para que desenvolvam o attachment ou ligao afetiva. 
Inclusive. h quem ache que, quando o pai ou outras pessoas da famlia assistem ao parto, alm de oferecerem 
segurana emocional para a me, estariam-se ligando afetivamente ao beb. 
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Quanto ao beb, constatou-se que crianas nascidas em casa cuidadas, desde o incio, pelas prprias mes, estabelecem um 
biorritmo prprio em poucos dias. Ao contrrio, nas enfermarias demoram dez dias, alm de apresentarem maior dificuldade de 
alimentao e mais choro. 
Conclui-se, portanto, que este perodo ps-parto  muito delicado tanto para a me quanto para o beb, podendo determinar a 
qualidade da ligao afetiva que se ir estabelecer entre os membros da dade criana-me. 
O tratamento mecnico dispensado  mulher, que exige dela passividade, ausncia de informaes e pouco contato com o beb, 
pode gerar sentimentos de culpa e frustraes que, quando prolongados, provocam depresso ps-parto, cujos reflexos podem 
durar muitos anos. Ela pode sentir-se privada de suas funes femininas, coagida e manipulada, embora do ponto de vista 
obsttrico o parto tenha sido um sucesso. 
Sugere-se ento que a assistncia dada  gestante,  parturiente e  nutriz seja feita de maneira mais calorosa, mais humana, que 
inclua a participao do marido e dos outros filhos (ctuando houver), no sentido de promover uma interao familiar sadia. 
1.1.1 Bibliografia 
1 . Beil, R . A. Contributions of human infants to caregiving and social interaction. In: Lewis, M. e Rosemblaum, L. (org.) The 
effects of the infan on it. caregivus, N .Y., Willey, 1974, cap. 1, pp. 1-19. 
2. BeIl, R.A. A reinterpretation of the direction of effect in studies of socialization.. Psychological Review, 75 (2): 81-95, 
1968. 
3. Brown, 1 .U.; Bakerman, R.; Snyder, P.; Fredricksonw; Morgan, S. e Hep1er R. Interactions of black inner city mothers with 
their newborn infants. Child Development, 46: 677-686, 1975. 
4. Carmichael, 1.. Manual de Psicologia da Criana. Organizador: Mussen P.: 
Coordenador da edio brasileira: Samuel Pfromm Netto. So Paulo, E.P.U./EDUSP, 1975. Vol. 1: Bases biolgicas do 
desenvolvimento. Vol. 
II: O primeiro ano de vida e as experincias iniciais  1. Vol. III: O primeiro ano de vida e as experincias iniciais  II. 
5. Coste, J. A psicomotricidade, Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1978. 
6. Moss, H.A. Sex, age and state as determinants of mother. Infant interactions. Merril-Palmer Quarterly, 13 (1): 19-36, 1967. 
7. Mussen, P.H.; Conger, J.J. e Kagan, J. Desenvolvi,nento e personalidade da criana. 4 cd., So Paulo, Ed. Harper e Row do 
Brasil Ltda.. 1977. 
8. Papalia, DE, e Olds, 5W. A childs world: infancy tlirough adolescence. 
2. ed. N.Y., McGraw-F{ill mc., 1979. 
9. Singer, R. D. e Singer, A. Psychologica! development in children. Ed. 
W. B. Sandus, 1969. 
10. Spitz, R. A formao do ego: uma teoria gentica e de campo. So Paulo, Martins Fontes, 1971. 
11. Spitz, R. O primeiro ano de vida. So Paulo. Martiris Fontes. 1979. 
1.2 Psicologia da gestao 
Wagner Rocha Fiori 
1.2.1 O contexto familiar 
Quando uma criana  concebida, j h na me e no pai uma organizao de fantasias ou de expectativas 
ligadas  concepo e ao desenvolvimento da criana. Isto  verdadeiro tanto para as gestaes programadas, 
onde as expectativas so explicitadas pelos pais, atravs das preocupaes com a gravidez, com a escolha de 
nomes, com a preferncia de sexo, com as expectativas sobre futuras caractersticas fsicas, perspectivas de 
profisso e evoluo social, e muitas outras expectativas, quanto para as concepes acidentais. Por que uma 
gestante solteira provoca aborto, enquanto outra luta contra tudo para ter o filho? Por que alguns pais 
assumem com intenso prazer o filho-surpresa e outros o desagregam psicologicamente? Por que mulheres, s 
vezes at muito metdicas, erram na utilizao de meios anticoncepcionais? Podemos inclusive tomar o 
processo pelo contrrio: por que muitas mulheres tentam engravidar durante anos, submetem-se a vrios 
tratamentos que acabam revelando-se infrutferos e, to logo abandonam as tentativas e adotam uma criana, 
imediatamente engravidam? 
Todas estas questes nos indicam que, se do ponto de vista biolgico a gravidez comea com a concepo, 
do ponto de vista psicolgico h uma histria do pai e da me, dentro da qual j esto reservados padres de 
relacionamento a serem estabelecidos com a vinda da criana. 
Joo 
Joo, sete anos, chega ao consultrio trazido pela me. Os pais so europeus, estabelecidos no Brasil desde 
que tinha 3 anos. A me procura o tratamento s escondidas do pai. As queixas se referem ao baixo rendimento 
escolar, raciocnio considerado pobre pelas pedagogas, incapacidade de se relacionar com os amiguinhos, 
fobias e especificamente um terror paralisante diante das cleras do pai. O pai s comparece aps vrios meses 
de tratamento. 
Na histria do pai encontramos que  de famlia bem dotada economicamente, com pais e irmos bem-
sucedidos. Ele  uma espcie de ovelha negra da famlia. No conseguiu realizar estudos superiores, apesar 
dos melhores colgios europeus e das tentativas da me de sempre ajud-lo. Tentativas s vezes inadequadas, 
como interferir junto  direo dos colgios. H no pai um misto de clera 
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contra os pais que o sufocam, paralelo a uma posio subserviente de dependncia. Dirige empresas que esto 
em nome da famlia por um salrio quatro ou cinco vezes menor que a realidade de mercado. Os negcios no 
vo bem, mas, quando esporadicamente assessora outra empresa,  administrador brilhante, recebe excelentes 
propostas, mas no as aceita. 
A me, filha de operrios,  de uma beleza rara. Como o pai, sofre um domnio sufocante da famlia, 
notadamente da me. Ao contrrio do pai, cuja famlia dele nada espera, a me  levada a uma expectativa alta 
de realizao, mas paradoxalmente dentro de uma postura impotente. Os desejos que a dirigem so os desejos 
da me e no os seus. No  ela que se realizar, mas a me que se realizar atravs de uma filha impotente. 
Do romance decorrente, surge a concepo de Joo. Para a famlia do pai  o ponto final das demonstraes de 
sua incapacidade de fazer algo de bom.  deserdado e, com o casamento, perde seus privilgios anteriores, 
tendo que sobreviver desempregado s expensas do sogro, apenas um operrio. Para a famlia da me, o sonho 
da gata borralhena dc ser princesa queda destrudo. O prncipe virou sapo. A estria de fadas inverte-se. E 
resta a vergonha de uma filha solteira, grvida, que deve casar-se s pressas. 
Qual poderia ser a evoluo deste filho? Seu nascimento destri um pai impotente, mas colrico. Destri uma 
me criada para realizar os desejos da av. Como ser forte, se vencer confirmar de novo a impotncia dos 
pais? Como identificar-se com o pai e formar sua masculinidade, se o pai no o reconhece, e se o pai s surge 
nas cleras? Como apoiar-se numa me frgil, que teme o pai, que se submete aos avs? Joo tambm no 
pode crescer intelectualmente. Como buscar o saber, se junto com o conhecimento e a compreenso poder 
haver a percepo da destruio que causou? 
A vinda de um segundo filho faz a redeno do pai com a famlia. A gestao  completada no Brasil e o pai 
empossado na diretoria de um grupo de empresas. Um filho brasileiro lhe d direitos. Na realidade, o pai  
novamente manipulado, mas assume como seu este segundo filho que lhe d conquistas. Como Joo poder 
crescer, se em sua cabea v apenas o pai assumindo como filho a criana menor? 
Vemos que Joo no inicia sua vida com a concepo ou o nascimento. Sua evoluo j est patologicamente 
perturbada pela histria de vida de seus pais. O atendimento teraputico que poderia ajud-lo no teve a 
aceitao do pai. O pai no concordou com o atendimento, mas permitiu que a me o assumisse. Depois de 
alguns meses, o garoto apresentou boa melhora no rendimento escolar, e os pais suspenderam a psicoterapia. 
Fato que, infelizmente,  de 
ocorrncia comum. Desaparecido o sintoma externo, interrompe-se o tratamento. Mas o problema central ainda 
no fora resolvido. 
Paulo 
Paulo vem para diagnstico aos seis anos. Forte, agitado, agarrado  me, no desce de seu colo. A expresso 
 de quem est muito perturbado. No h qualquer possibilidade de contato com ele. Quando a me o conduz  
minha sala, ele a belisca, puxa-lhe os cabelos, d-lhe socos. No quer contato com ningum. Paulo tem uma 
leso auditiva congnita grave. Ouve apenas os rudos graves. No entende sons. Vrias tentativas de 
tratamentos e aparelhos foram infrutferas. Tambm no consegue relacionar-se com as fonoaudilogas e seu 
desenvolvimento da fala, durante muito tempo de tratamento,  pobre. S a me o entende. As crianas com 
leses auditivas so muito propensas  manuteno de forte vnculo simbitico com a me. O isolamento e a 
incapacidade decorrentes de compreender o mundo no raras vezes as levam  psicose. 
Os pais se recusam a aceitar a incapacidade do filho. O pai, homem simples e decidido, continua a v-lo como 
seu filho, seu companheiro, e um homem que se desenvolver. Faz sacrifcios quase que impossveis na luta 
por sua recuperao, levando-o inclusive para diagnstico no exterior. So consultados de mdicos a mdiuns. 
A me o acolhe com amor. Erra ao tentar acertar, pois permanente- mente refora uma ligao simbitica. Mas 
acredita nele. 
Durante alguns meses a psicoterapia  realizada com a me presente. Aos poucos Paulo vai permitindo seu 
afastamento. Os pais, nas sesses de orientao, mostram excelente compreenso dos processos vividos por 
Paulo e podem ajud-lo muito. O tratamento fonitrico progride e as palavras dele so parcialmente 
compreensveis. Paulo me relata suas sadas com o pai, as pescarias, o futebol. s vezes no o entendo e ele 
se utiliza de desenhos e mmica para me explicar. Sou contra uma escola especial e junto com a me 
conseguimos uma escola comum, com classe pequena, que o aceite. O comeo  difcil. A professora me 
telefona pedindo orientao quase que semanalmente. As notas so inicialmente baixas, mas ao final do 
semestre Paulo j acompanha razoavelmente a classe. Complementa a percepo de sons com a leitura dos 
lbios. Mas ainda no pode fazer ditados normais. Oriento a professora para faz-los com figuras. Ao final do 
l. ano escolar Paulo  aprovado.  excelente aluno em aritmtica. Ainda fraco em portugus. Ao final do 
segundo ano escolar Paulo  um aluno praticamente normal. No entendo como, sendo deficiente, pode ter 
tanta liderana sobre o grupo, diz-me a professora. O tratamento psicolgico tem alta e os 
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pais so orientados para que me procurem, se surgirem momentos crticos. Recebo depois de alguns meses apenas um 
telefonema para informar que tudo vai bem. 
Joo e Paulo  A fantasia familiar 
Vimos dois exemplos extremos. De um lado, uma configurao de fantasia familiar, dentro da qual a concepo do filho 
concretiza no plano simblico a destruio dos pais. Por concretizao estou entendendo a existncia de uma fantasia ou 
temor no assumido, que de repente vem  tona face a um fato concreto que magicamente o confirme. Por exemplo, 
normalmente no acreditamos que quebrar espelhos d sete anos de azar. Mas, se recebermos uma notcia trgica logo 
depois de haver quebrado um, magicamente associamos os fatos, e a superstio fica instalada. Da mesma maneira no  
este filho que desagrega os pais. Ele apenas faz com que os problemas anteriores, camuflados, aflorem juntos. Fecha-se um 
crculo vicioso onde os pais se sentem simultaneamente destrudos por seu nascimento, ao mesmo tempo em que, por no 
poder ajud-lo, assumem o papel de seus destruidores. A culpa gerada, ainda que inconsciente, torna-se novo foco de 
angstia que impedir tanto a reorganizao individual dos pais, quanto o adequado relacionamento com o filho. 
De outro lado, para Paulo estavam reservados amor e confiana. Um relacionamento adequado dos pais j lhe traara a 
estrada de um desenvolvimento sadio. A natureza o levou, destruindo-lhe um rgo fundamental para o desenvolvimento 
infantil. Pais fortes, no se abateram; e, se erraram, foi na tentativa de acertar. Havia uma ideologia coerente de mundo, 
transmitida para a criana, dentro da qual estavam claras as mensagens de que ela era amada e de que se confiava nela. 
Polidas as arestas, Paulo pde desenvolver seu potencial. 
1.2.2 As fantasias e os sintomas especficos da gestao 
A me  a figura central do desenvolvimento psicolgico infantil. O pai s tardiamente  percebido. Paralelamente ao 
contexto de fantasia familiar, haver um significado psicolgico especfico da gravidez para a me, significado este que 
facilitar ou dificultar assumir adequadas relaes de maternagem. 
Rachel Soifer, psicanalista argentina, em seu Psicoioga dei Embarazo, Parto y Puerperio, descreve e sistematiza as 
vrias etapas pelas quais a gestante passa, da concepo ao puerprio, esclarecendo os vrios surtos de ansiedades 
especficas que a gestante tem, bem como as fantasias subjacentes a cada momento. 
Para Soifer, toda gestao implica de incio em uma ambivalncia bsica: de um lado o desejo de ter a criana, 
ou seja, sua aceitao; de outro, a rejeio  gravidez, ou seja, o temor da gestante de ser destruda pela 
gestao. Note-se que no  uma rejeio especfica ao filho, mas sim uma postura defensiva diante dos 
temores gerados que levam a me a fantasias ou sintomas de rejeio. Para ela, os genitais possuem estreita 
correlao com os processos psquicos e, quando os padres de no aceitao da concepo predominam, 
estabelecem-se vrios processos psicanalticos que impedem a concepo. Por exemplo, contraes uternas 
que expulsam o esperma, inflamaes tubrias, variaes do PH que tornam a vagina e o tero espermaticidas. 
O pressuposto  ento que, quando uma concepo se realiza e  mantida, o desejo de ser me  predominante 
sobre a rejeio. Mesmo que a vinda da criana crie enormes problemas reais e seja rejeitada ao nvel 
consciente, no plano inconsciente e mais fundamental h o desejo de um filho. Devemos acentuar que a 
relao inversa  igualmente verdadeira, ou seja, qualquer gravidez bem aceita, planejada, oriunda de pais 
saudveis, sempre trar consigo alguns temores. As ansiedades aqui sero minimizadas, mas surgiro, e 
qualquer surto de ansiedade sempre incrementar fantasias ligadas  rejeio da gravidez. 
As mensagens de aceitao ou rejeio, embora possam ser explicitadas verbalmente, so basicamente 
processos inconscientes. Enquanto atuantes a este &vel, no as perceberemos formalmente verbalizadas, mas 
as compreenderemos atravs de seus sintomas. Um sintoma  uma forma disfarada de expressar a mensagem 
que no pode ser dada, ou seja, a mensagem ou o desejo surge sob a forma de um enigma, que impedir que o 
sujeito tenha percepo consciente de um processo ansiognico. 
1.2.2.1 A gravidez  percebida antes do seu diagnstico 
Antes da confirmao clnica da gravidez, ou mesmo nos casos em que a concepo surge de surpresa e a 
gestante no tem conscincia de que est grvida, vrios sintomas surgem, indicando que a gravidez j est 
mobilizando a organizao psquica. Os principais sintomas so a hipersonia, o tema dos sonhos, o aumento 
do apetite, as nuseas, diarria e a constipao intestinal. Examinemos o significado de cada sintoma: 
Hiper sonja e regresso 
Quando observamos uma me em seu relacionamento com o recm-nascido, imediatamente nos chamam a 
ateno os comporta- 
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mentos infantis desta me. Ela balbucia para falar com o filho, seus comportamentos so mais corporais do que 
verbais. Sente prazer em manusear a criana ao limp-la dos excrementos, conduta esta que causaria repulsa em 
grande parte das pessoas. Percebemos ento que esta me, de certa forma, se infantilizou. 
Este processo, que tecnicamente chamamos de regresso, tem por finalidade adaptar o psiquismo da me  
compreenso e atendimento das necessidades infantis. A criana jamais poder formalizar em termos adultos 
seus desejos e necessidades. A natureza desenvolve, portanto, a evoluo de um processo regressivo 
materno, atravs do qual o dilogo filho-me poder ser estabelecido, O processo no  apenas regressivo:  
tambm um processo de identificao. A criana  como que sentida como uma extenso da me. Este 
nivelamento atravs de uma afetividade infantil  um ponto fundamental da maternagem. Quando negado ou 
inexistente, no s  indicador de patologia materna, como dificultar para a criana o estabelecimento dos 
vnculos de amor com a figura bsica de seu desenvolvimento inicial. Com freqncia temos acompanhado o 
tratamento de crianas problemticas, onde esta relao afetiva inicial foi substituda por uma postura tcnica e 
profissional das mes. So com freqilncia filhos de mdicas, pedagogas, psiclogas, onde tecnicamente foi 
dada a melhor orientao possvel aos filhos, mas faltou a interao afetiva bsica. Estas crianas so 
praticamente criadas como filhos dos manuais. 
As alteraes hormonais que se sucedem  concepo so inconscientemente percebidas, antes mesmo do 
conhecimento formal da gravidez. Um dos primeiros sintomas a surgir  o incremento do sono. Este aumento 
do sono  um sintoma normal, positivo, que indica simultaneamente a existncia de dois processos psquicos 
ligados  gestao. Em primeiro lugar, no dizer de Mary Langer, demonstra uma identificao fantasiada com o 
feto, ou seja, ele  sentido como algo pequeno, permanentemente como uma extenso da me que dorme. E o 
sentir sono, o dormir junto,  estar compartilhando do mesmo processo. Neste sentido, a hipersonia  um 
sintoma de aceitao da gravidez que se inicia. Paralelamente, este sintoma indica o incio do processo da 
regresso materna. Ou seja, a me inicia a adaptao afetiva que lhe permitir sentir-se como o beb, para 
poder compreend-lo nos seus desejos e necessidades. 
H ainda um terceiro fator presente na hipersonia, que  o incio da organizao defensiva que se mobilizar 
contra as ansiedades especficas da gestao. Repousar  desligar-se do mundo externo, das preocupaes e 
ansiedades, bem como possibilitar um fortalecimento orgnico, sempre importante para enfrentar os momentos 
de crise. 
O tema dos sonhos 
As gestantes, mesmo neste perodo que antecede a descoberta da gravidez, trazem dois temas bsicos em seus 
sonhos. O primeiro, cuja relao simblica  clara, povoa seus sonhos de filhotes de animais e crianas. O 
segundo diz respeito ao prprio processo da gestao. Sonham com objetos continentes, por exemplo, interior 
de casas, veculos onde h gente dentro, carteiras, bolsas ou outros objetos onde h coisas dentro. Todas 
estas coisas, notadamente a casa, so objetos que simbolicamente representam o corpo da me. So objetos 
cuja finalidade  abrigar outros em seu interior. 
O curioso, no processo,  que esta percepo inconsciente da gestao  de alguma forma transmitida para o 
pai e os irmos maiores. As crianas apresentam-se com manhas, terrores noturnos, ataques  me, por 
exemplo disfarados no brinquedo de vir correndo e pular na barriga da me. Uma conhecida psicanalista de 
crianas nos relatou em comunicao pessoal o caso de um garotinho, seu cliente, que de repente comeou a 
querer vasculhar todas as suas gavetas e a sistematizar brincadeiras com filhotes de bichinhos. Ela pergunta 
ento  me se est grvida e esta, surpresa, diz que est com a menstruao atrasada, que no sabe se est 
grvida ou no, e que no disse nada nem ao marido. Duas ou trs semanas depois, a me traz a notcia de que 
a gravidez fora clinicamente confirmada. 
Ao nvel do marido, os sonhos j surgem com caractersticas persecutrias. Por exemplo, sonhar que j foi 
despedido e contrataram outro para seu lugar, ou que h um rival querendo roubar alguma coisa que  sua. 
Vemos que o marido j est psiquicamente engajado na gestao, de certa forma engravidando 
psicologicamente junto com a mulher. Estes sonhos persecutrios devem ser analisados em dois nveis. Num 
primeiro, so uma reao  retrao da mulher, que se afastar progressivamente dele para colocar a criana no 
foco de suas atenes. Num segundo nvel, indica uma regresso do marido ao ponto de seu desenvolvimento 
psicolgico onde foi mais difcil enfrentar a competio de um terceiro, ou seja, ao seu prprio complexo de 
dipo. A relao triangular que se estabelecer trar ressonncias de sua prpria vida passada, durante a 
resoluo de seu Edipo. O processo  ambguo, porque ama o filho e sente que ser amado por ele, como ama e 
foi amado por seu pai. Mas tambm odiou seu pai como um competidor, na luta simbolica pela posse da me, e 
temeu ser por ele castrado. Assim, teme o odio e a destrutividade de seu filho, bem como os seus, atualizando 
suas angstias no resolvidas durante a fase edipiana. 
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Fome, nuseas, diarria e Constipao 
Os processos psquicos tendem a ser globalizantes. Quando algum modelo de relao se estabelece, no o faz, em geral, 
apenas para um segmento da personalidade, mas todas as relaes internas e, portanto. toda decorrente interao com o 
mundo, passam a sofrer interferncias desta modalidade de relao estabelecida. Vimos acima que o nascimento de um filho 
gera um tringulo familiar que faz com que o pai retome suas angstias edpicas passadas. No caso da me, a regresso que, 
a priori, est a servio de uma maternagem adequada, far com que, paralelamente, a estrutura afetiva regredida da me 
seja particularmente sensvel  retomada de suas angstias passadas. 
A criana, durante suas etapas iniciais de vida, nutre no apenas um grande vnculo de amor pela me, mas tambm 
apresenta crises de dio e destrutividade. Tratamos introdutoriamente destes aspectos no primeiro volume desta coleo e 
o aprofundaremos progressiva- mente dentro de nossa proposta de acompanhamento evolutivo da criana. Por ora, basta-
nos saber que no s a criana deseja o seio, como nas crises de fome e de dor fantasia ataques destrutivos ao seio, onde as 
armas so principalmente os dentes, as fezes e a urina. O seio, e depois a me, so ambgua e paralelamente assimilados 
como bons, e atacados como maus. Se as angstias despertam o instinto de morte e se a me constitui o objeto bsico da 
relao inicial, quanto maiores as angstias do incio da vida mais ficam fixadas as fantasias de que a me foi atacada ou 
destruda, e, em contraponto, pelo retorno da destrutividade projetada, mais ficam fixadas as fantasias de que a me atacou 
ou destruiu a criana 
Toda gestante possui ento uma histria passada onde, paralelamente aos momentos de prazer, houve momentos onde 
aangstia e a destruio estiveram presentes em seu relacionamento fantasiado com a me. Estamos utilizando o termo 
relacionamento rantasiado porque para o desenvolvimento afetivo o que importa  a realidade psquica. A realidade externa 
objetiva, exceto se muito patolgica, serve em geral para concretizar as fantasias que o psiquismo est gerando. Nenhuma 
me mdia  totalmente boa ou m. A criana pode tomar como preponderante ou os seus aspectos bons ou os maus. 
Isto depende de vrios fatores, como a capacidade congnita de crescimento (fora de Eros, ou do instinto de vida), de 
fatores circunstanciais (doenas da criana ou da me, afastamentos acidentais, etc . .) e das atitudes globais da me. 
Devemos ter claro que a gestante est com um filho presente. Ainda no nasceu, mas j h o relacionamento afetivo dela 
com um filho. Estamos portanto num binmio me-filho, tal qual a gestante 
teve com sua prpria me. Se ela est regredindo a modelos afetivos infantis, est tambm retomando as 
angstias vividas na relao com sua prpria me. E estes conflitos so atualizados na relao que agora 
estabelece com seu prprio filho. Se em sua fantasia sente que atacou e destruiu sua me, agora ter o 
sentimento de que ser atacada e destruda por este filho. Se a inveja e a voracidade foram sentimentos que a 
dominaram durante seu aleitamento, deve ter restado um sentimento de que, para crescer, esvaziou e destruiu a 
me. Este sentimento poder ser agora atualizado, ficando a fantasia de que, para crescer, o filho a destruir. 
As angstias geradas durante a gestao so basicamente organizadas como atualizaes das angstias 
vividas pela gestante, quando ainda beb, em seu relacionamento com a me. 
Todos estes processos so inconscientes. Manifestam-se basicamente atravs de sintomas orais e anais, visto 
que estes perodos carregam os aspectos mais destrutivos (e tambm mais cheios de amor) da fantasia infantil. 
Ao nvel oral a fome aparece como um sintoma de aceitao. A gestante come desbragadamente, alegando que 
est comendo por dois. Ora, no final da quarta semana o embrio tem apenas 5 mm de comprimento. Ao fim do 
2. ms, apenas 25 mm.  bvio que a grande quantidade de comida extra no est sendo usada para alimentar 
o feto. A fantasia determinante  a de pr coisas boas dentro do corpo, ou seja, a de ter coisas boas dentro do 
corpo. Da as tarefas rduas dos maridos de procurarem raros e saborosos quitutes. s vezes fora de poca e 
hora, para satisfazer suas esposas. 
A nusea, ao contrrio, surge como um sintoma de que algo inteiro  sentido como mau e precisa ser 
eliminado.  comum pessoas sentirem nuseas diante de situaes deprimentes. Mas voltamos a frisar que, 
face  ambigidade emocional diante da gravidez,  normal coexistirem tanto a fome (aceitao) quanto as 
nuseas (rejeio). Normalmente, a fome passa a estar sob controle e as nuseas desaparecem ou diminuem 
com a evoluo do processo. A permanncia de um nvel alto de nuseas e vmitos  indicativo de que a 
gestante necessita atendimento psicoprofiltico voltado para o parto. 
A constipao e a diarria so correlatos anais da fome e da nusea, A constipao se manifesta como uma 
tentativa de reter dentro de si um produto que  precioso.  um sintoma de aceitao mas, se exacerbado, alm 
dos problemas fsicos decorrentes, pode estar indicando uma tentativa de aprisionamento simbitico do filho. 
Isto poder ser um sintoma de problemas futuros, ou seja, a me no permitir que a criana se desligue e 
construa sua identidade pessoal. Na diarria, tal qual na nusea, h no sintoma fsico a tentativa de expelir um 
processo interno ansigeno. Note-se que o que se tenta 
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expulsar  o processo que gera a angstia, e no o filho. Mas, quando estes sintomas de rejeio so intensos, h alto risco 
de aborto. O mecanismo de defesa psicolgico foi inadequado e exacerbado. 
1.2.2.2 Outros momentos crticos da gravidez 
Rachei Soifer acompanha cada etapa especfica da gestao, analisando as fantasias e os sintomas correlatos. Apresentarei 
apenas trs outros perodos crticos da gestao, por me parecerem os centrais na evoluo psquica da gestao: a 
placentao, a instalao dos movimentos fetais e os ltimos dias antes do parto. 
Placenta o 
A nidao e a placentao so processos que biologicamente poderamos classificar de parasitismos. No so processos de 
trocas, mas processos nos quais um organismo se instala no outro, sugando-o para prover seu prprio desenvolvimento. 
Fazem parte do psiquismo infantil fantasias de roubar (sugar, esvaziar pela voracidade e inveja) e ser roubado. Os 
processos psquicos parecem sempre se originar de processos biolgicos de base, pelo menos em sua origem. Por isso, 
sempre dizemos que o psicolgico  anacltico ao biolgico. Se no desenvolvimento biolgico da gestao existe um 
processo orgnico de parasitagem, isto criar condies de base para a emergncia de fantasias persecutrias. Neste 
momento os sonhos das gestantes traduzem fantasias tpicas de estarem sendo roubadas e esvaziadas. Este  um momento 
crtico dentro da gestao. Se os sintomas de rejeio (nuseas e diarrias) persistirem, um acompanhamento psicolgico da 
gestao, bem como as orientaes e informaes concretas s gestantes sero necessrios como psicoprofilaxia do aborto. 
A movimentao do feto 
A motilidade surge no feto a partir do 4,0 ms. Em geral ainda no h a percepo consciente destes movimentos. Grande 
parte das gestantes os percebem durante o 50 e algumas s no 70, Vrias ansiedades esto ligadas  percepo destes 
movimentos, e  um mecanismo defensivo normal o embotamento de sua percepo, ou seja, a negao. Assim, estes 
movimentos que so inconscientemente percebidos, podem ser negados no plano da percepo consciente. Nos casos mais 
graves, esta negao pode ser somatizada atravs da contrao dos msculos abdominais, numa tentativa fantasiosa de 
impedir a movimentao do feto. Se estas contraes musculares, que so inconscientemente provocadas, persistirem 
durante a conti nua 
do processo, podero interferir na rotao do feto, deixando a criana em posio atpica para o parto. 
O conflito aceitao-rejeio que acompanha a gravidez ser agora sintomatizado na verbalizao. Algumas 
mes se utilizaro de frases carinhosas para indicar os movimentos. Diro que a criana as est alisando, est 
se aninhando, ou que parecem borbulhas gostosas. Outras os descrevero como chutes, cutucadas, no 
sendo raro ouvir frases como est me entortando a costela ou est me amassando o rim. A verbalizao 
pode ser tomada numa relao direta. As verbalizaes positivas ou prazeirosas, como manifestao da 
dimenso de aceitao; e as negativas ou agressivas, como manifestao da rejeio. 
Com a movimentao fetal surge tambm a percepo concreta de que o feto est vivo, ou seja, a conscincia 
de que se est dando  luz uma nova gerao que emerge. Esta conscincia trar vrias fantasias especficas 
que envolvero diferencialmente marido e mulher. Em primeiro lugar, emerge a responsabilidade materna, ou 
seja, a preocupao com as caractersticas que ter a futura criana. Note- se que, no plano da fantasia, a 
criana  sentida muito mais como produto da me do que do pai. Para isto podemos apontar, de um lado, 
razes na evoluo filogentica da fantasia, ou seja, a capacidade masculina de fecundar as mulheres s  
descoberta tardiamente na histria da evoluo humana. Nos grupos mais primitivos a formao do beb era 
de responsabilidade exclusiva das mulheres. De outro lado, razes atuais, em que, pelo fato de carregar o 
nascituro no ventre durante 9 meses e por nutrir sua formao da concepo ao nascimento, o beb acaba 
sendo fantasiado muito mais como um produto materno do que como um produto dual. Embora esta 
preocupao tambm surja nos pais,  notadamente intensificada nas mes. Um meio concreto de se confirmar 
este dado consiste em verificar como os pais suportam melhor o nascimento de uma criana lesionada do que 
as mes. 
Quanto melhores tiverem sido as relaes iniciais da gestante com sua me, em geral menor ser o temor de 
deformao fetal. Digo em geral porque fatores concretos tais como malformao uterina e doenas genticas 
na famlia agravaro o temor. Ernest Jones, j no incio do sculo, havia caracterizado que, das relaes hostis 
me- filha, pode ficar na criana o sentimento de que est destruda sua capacidade de sentir prazer ou de obter 
gratificao genital. Melanie Klein amplia depois a compreenso destas relaes, mostrando que a estrutura 
central da fantasia decorrente  o temor de ter destrudo os rgos internos da me, ou de que a me destruiu 
os seus.  medida que predominou a angstia, ou seja, os ataques destrutivos fantasiados nas relaes 
iniciais, perdurar na mulher a fantasia de 
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que seu interior  destrudo ou destrutivo, O filho, produto de seu interior, poder ser fantasiado como atingido por esta 
destrutividade. Na prtica, isto aparecer por uma reao manaca, ou seja, a me verbalizar e apregoar que ter um filho 
maravilhoso, forte, saudvel, sensvel, inteligente. E interessante como estas afirmaes vm precedidas claramente por 
mecanismos de negao dos temores. A me dir coisas assim: no estou preocupada, porque sei que tudo ir dar certo. . . 
jamais tive a preocupao de que ser defeituoso e acho que ser muito bonito. . , etc. E senso comum em psicologia que as 
afirmaes precedidas de negao normalmente indicam um temor que no est sendo percebido. Quando pedimos a estas 
mes que nos relatem seus sonhos, neles encontramos estes temores presentes de forma direta ou simbolizada. 
A conscincia de que se est produzindo uma nova gerao desperta igualmente no pai e na me o temor de sua prpria 
morte. A fantasia bsica subjacente  a de que, uma vez posta no mundo a gerao futura, a gerao atual cumpriu sua 
tarefa e inicia seu trajeto rumo  morte. A sucesso de geraes, ou seja, o ciclo de vida. procriao e morte faz parte do 
ciclo evolutivo da natureza, O suporte para a fantasia  filogentico. Mas no deixa de apresentar modelos defensivos 
atuais, por exemplo, a postura filicida faz parte no s das mitologias (Cronos come seus filhos para que no cresam e 
tomem seu lugar), como tambm das estruturas sociais modernas, onde a gerao dominante cria barreiras  ascenso dos 
grupos jovens. O vestibular  um exemplo tpico do modelo social de conteno da gerao emergente. 
Ao nvel da mulher, a condensao destas ansiedades  o temor de morrer no parto. Ao nvel do homem, o temor fica mais 
difuso, por falta de um suporte concreto. Temos observado que este constitui um momento crtico na estrutura psquica do 
marido, sendo que muitos abandonos de lar ocorrem nestes momentos. A ansiedade no definida provoca uma defesa 
inadequada, e o marido foge. 
A movimentao fetal acentua tambm a configurao de uma relao triangular pai-me-filho. Isto atualiza os conflitos 
passados referentes  fase flica, ou seja, ao tringulo edpico. Muitas das expresses utilizadas pelas mes para descrever 
os movimentos soam como sensaes masturbatrias. Se a ansiedade edpica aumenta, dois sintomas ficam tpicos. O 
primeiro  evitar o relacioramento sexual, pois com isto afasta-se a idia de sexualidade; portanto, evitam-se as fantasias 
incestuosas. O segundo  o enfeiamento da gestante. As roupas horrveis chinelos, anda mal arrumada e penteada. Esta 
deselegncia traz simbolizada a mensagem de que sou feia, portanto no sou sexualmente atraente, portanto no me 
envolverei numa sexualidade incestuosa. 
Ao nvel do pai, a atualizao do dipo traz vrios conflitos e sintomas. Um primeiro , como defesa, cindir a 
imagem feminina em mulher-me e mulher-sexual. Passa a evitar relacionamento sexual com sua esposa, 
idealizada como mulher-me, e inicia casos extraconjugais, em geral com prostitutas, onde  muito concreta e 
definida a imagem da mulher-sexual. Vejam que, se falamos em retomada das ansiedades edpicas, devemos ter 
presente que o temor de castrao est presente. Nesta situao, o temor de castrao se concretiza no temor 
de uma vagina dentada, que poder castr-lo na penetrao. Discutimos em detalhes esta fantasia masculina 
no primeiro volume desta coleo, quando tratamos dos mitos das sereias e iaras. Esta fantasia, se exacerbada, 
poder causar a impotncia masculina diante da mulher grvida. Durante vrios anos supervisionamos cerca 
de duzentas entrevistas anuais, realizadas por nossos alunos das Faculdades Metropolitanas Unidas, com 
gestantes e parturientes. E interessante como so freqentes estes episdios de impotncia e, em geral, 
racionalizados como um temor de ferir a criana. 
Uma outra caracterstica do psiquismo masculino neste momento  o aparecimento da inveja da fertilidade 
feminina. Da mesma forma que h na mulher uma inveja bsica do pnis, to exaustiva- mente explorada por 
Freud, outros psicanalistas, notadamente MeIafie Klen, descrevem o correlato masculino como uma inveja da 
capacidade que a mulher tem de gerar um filho em seu interior. Esta inveja  inconsciente, aparecendo neste 
momento como uma curiosidade ou preocupao em acompanhar o que est acontecendo dentro da mulher. O 
pai ento tenta escutar o beb, falar com ele, apalplo ou acompanhar seus movimentos. Este processo  
fundamental para o desenvolvimento do sentido de paternidade. Podemos observar facilmente nos grupos 
mamferos que em geral apenas a fmea assume a cria. Parece que o instinto materno  inato. O paterno deve 
ser desenvolvido. E a inveja da mulher, ao motivar este acompanhamento da gestao, faz com que o homem 
tambm sinta a gestao como sua, assumindo portanto o filho como seu e desenvolvendo o sentido de 
paternidade. 
O final da gestao 
 medida que o momento do parto se aproxima, se a ansiedade predominou na gestao, acirram-se os 
conflitos bsicos j discutidos. Apenas trs aspectos nos parecem um acrscimo importante. Em primeiro 
lugar, o temor de morte passa a ser no s uma fantasia de transio de geraes, mas tambm um temor 
especfico de morrer no parto. Apenas h poucas geraes que as mulheres 
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esto livres deste risco. Antes dos desenvolvimentos da cirurgia, das anestesias e dos antibiticos, o risco de 
morrer no parto era razoavelmente grande. Agora este risco parece menor do que o de morrer em um acidente 
automobilstico mas, dentro do pensamento coletivo, o temor do parto permanece. 
Em segundo lugar, o desenvolvimento rpido do feto provoca alteraes bruscas do esquema corporal, e 
sabemos que estas alteraes provocam sensaes de estranheza, interferem na organizao espao-temporal 
e atualizam ncleos psicticos de despersonalizao. Devemos lembrar que isto no acontece apenas com a 
gestante. As engordas rpidas, ou os emagrecimentos rpidos, tambm as provocam. O mesmo fenmeno se 
d com o desenvolvimento fsico brusco do adolescente inicial. 
Em terceiro lugar, a interrupo das relaes sexuais, situao que freqentemente ocorre neste perodo final, 
contribui para a elevao da ansiedade. Rachei Loifer afirma que as relaes sexuais devem ser mantidas at os 
ltimos dias por trs motivos bsicos. Em primeiro lugar, porque mantm a harmonia conjugal ao diminuir os 
cimes, tanto os do marido com relao ao filho, quanto os da mulher com relao aos possveis casos 
extraconjugais do marido. Em segundo lugar, porque, sendo o orgasmo a maior fonte de descarga de tenso do 
adulto normal, a manuteno da capacidade orgstica e libidinosa, da mulher propicia momentos de prazer, 
relaxamento e tranqilidade dentro de um processo que tem seus aspectos ansigenos. Em terceiro lugar, 
porque o exerccio sexual mantm a flexibilidade dos msculos perineais, o que facilita a distenso no momento 
do parto. 
1.2.3 Concluso 
Tentamos explicitar que a vida psquica da criana no parte de um marco zero com o nascimento. As 
estruturas psquicas do pai e da me j reservam para a criana um lugar pr-determinado. Tambm os 
conflitos evolutivos no resolvidos de cada um sero atualizados durante a gestao e tero importncia 
fundamental nas expectativas ou fantasias parentais. Ao rascer, a criana no est livre para se desenvolver. 
Ela crescer com o amor e fantasias positivas que os pais nela depositam, mas tambm reagir e sofrer as 
crises decorrentes do lugar persecutrio que ocupa nas fantasias parentais. isto nos deixa algumas lies 
bsicas. A primeira  a de que s poderemos compreender a patologia infantil se tivermos a compreenso das 
fantasias familiares ligadas a esta criana. A segunda  a de que uma psicoterapia infantil ter sua 
probabilidade de sucesso ampliada,  medida que os conflitos dos pais, notadamente 
os correlatos  criana, possam ser suportados por uma aconselhamento teraputico. E em terceiro lugar, 
muitas patologias familiares e conflitos prejudiciais ao desenvolvimento infantil seriam evitados com o 
atendimento do casal em uma psicoprofilaxia de parto. 
1.2.4 Leituras recomendadas 
As leituras indicadas neste segundo volume pressupem o embasarnento terico tratado no primeiro.  
necessrio que os conceitos bsicos de psicanlise estejam adquiridos, para que o acompanhamento da leitura 
mais especializada possa resultar proveitoso. 
1. Mannoni, M. A criana atrasada e sua me. Lisboa, Moraes Ed., 1977. A autora, psicanalista teoricamente 
filiada ao grupo de Lacan, analisa o contexto da fantasia familiar e suas decorrentes implicaes na patologia 
infantil. 
2. Soifer, R. Psicologa dei embarazo, parto y puerperio. Buenos Aires, Kargioman, 1976. Rachei Soifer analisa 
neste trabalho, etapa por etapa, as reaes psquicas e sintomas existentes na me, no pai e nos filhos, 
decorrentes da gestao. O trabalho prope ainda as bases da psicoprofilaxia da gestao e parto. 
3. Dolto, F. Psicanlise e Pediatria. Rio de Janeiro, Zahar, 
1 972. A autora discute em linguagem simples o desenvolvimento da libido, para em seguida exemplific-lo com 
vrios casos clnicos. 
4. Abrahan, K. Teoria psicanaltica da libido. Rio de Janeiro, Imago, 1970.  uma coletnea de vrios textos 
tericos de Abrahan. Neles, Abrahan desenvolve e aprofunda os conhecimentos deixados por Freud 
referentes s etapas pr-genitais de desenvolvimento. 
5. Segal, H. Introduo  obra de Melanie Klein. Rio de Janeiro, Imago, 1975. A autora, professora de 
psicanlise do Instituto de Psicanlise de Londres, apresenta neste trabalho uma sntese das aulas por ela 
ministradas sobre Melanie Klein. Este livro oferece uma viso panormica e didtica que facilita o posterior 
contato com as obras especficas de M. Klein. 
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